Regenerate Enamel Science™

Alguns pacientes tem me perguntado sobre o creme dental Regenerate Enamel Science™ da Unilever. Este produto promete regenerar o esmalte pela ação de Silicato de Cálcio e Fosfato de Sódio. Segundo o fabricante, este produto é um creme dental avançado e possui a tecnologia NR-5™, a qual, mimetiza o efeito da biomineralização para reverter os estágios iniciais e invisíveis da erosão do esmalte.

  • À medida em que os ingredientes se combinam, forma-se um novo mineral do esmalte, que se envolve e se integra aos dentes.
  • O mineral que é formado chama-se hidroxiapatia – e é exatamente igual ao mineral que forma o esmalte dentário.

Além disto, o fabricante cita que 9 anos de pesquisa comprovaram clinicamente e cientificamente o sucesso do produto e citam até o fato de possuírem 5 patentes internacionais e alguns laboratórios idealizadores deste produto.

Dentro da odontologia, nós procuramos sempre que possível tratar de inovações embasados em trabalhos de pesquisa imparciais e idôneas sobre determinado assunto. E, pesquisando na internet, não achei nenhum trabalho que comprove a eficácia deste produto. Solicitei a Univeler, via site da empresa, maiores informações e também trabalhos científicos acerca deste produto. Consegui alguns trabalhos em inglês sobre os estudos de eficácia da combinação de Silicato de Cálcio e Fosfato de Sódio + Fluoretos na remineralização dos dentes. Todos os estudos sugerem eficácia porém apenas in vitro. Ou seja, não houveram estudos in vivo. E resultados in vitro nem sempre validam a eficácia in vivo por diferentes fatores. O cloreto de cetilpiridínio presente comercialmente no Cepacol e Plax sem alcool, por exemplo, tem uma grande eficácia na inibição de crescimento bacteriano in vitro, mas in vivo, seus resultados se mostraram insatisfatórios.

Há consenso que o flúor presente nos cremes dentais, na água tratada, enxaguatórios bucais e alguns alimentos é o grande responsável por diminuir a incidência de cárie e promover uma melhora na estrutura dentária da população mundial nos últimos 40 anos.

Para entender um pouco sobre esmalte dentário e processos fisiológicos do mesmo, cito este artigo sobre o processo de desmineralização e remineralização do esmalte dentário e a ação do flúor:

O Esmalte é um tecido diferenciado e altamente mineralizado composto basicamente por cristais de hidroxiapatita, que contém cálcio e fosfato na sua composição. O esmalte em geral encontra-se em equilíbrio dinâmico com a saliva, liberando ou ganhando cálcio e fosfato do meio, dependendo das variações de PH da saliva. Essas trocas de íons cálcio e fosfato ocorrem constantemente, ou seja, a saliva e o esmalte estão o tempo todo trocando íons entre si.

Normalmente, o meio bucal possui pH próximo ao neutro  > que 5,5. Nessa situação a saliva encontra-se em condições de super saturação em relação ao produto de solubilidade de hidroxiapatita. Isso quer dizer que o esmalte irá ganhar cálcio e fosfato, pois há mais desses íons na saliva do que no esmalte. É chamado mineralização pois o esmalte estará recebendo íons da saliva na forma de cristais de hidroxiapatita. Quando o pH diminui (abaixo ou igual a 5,5) as condições de saturação da saliva se alteram (inversão). Nessa situação há mais íons fosfato e cálcio no esmalte do que na saliva, então a tendência é o dente perder esses íons para a saliva tentando manter o equilíbrio. Se isso ocorrer por tempo prolongado (ex: consumo excessivo de alimentos açucarados) a perda constante de íons irá promover a desmineralização do esmalte e poderá desenvolver uma lesão de cárie. Caso essa situação não perdurar por longo tempo, e o pH retornar ao normal (> 5,5) haverá restabelecimento da supersaturação da saliva e o dente voltará a ganhar íons cálcio e fosfato perdidos na forma de hidroxiapatita, é o que se denomina remineralização.

Esses fenômenos DES E RE ocorrem constantemente no meio bucal. O flúor age reduzindo a solubilidade do esmalte, pois forma cristais de esmalte fluoretados. (fluorapatita e hidroxiapatita fluoretada). Quando o flúor está presente no meio bucal e a saliva se encontra com pH > ou = a 5,5, a saliva é supersaturada  em relação ao produto de solubilidade da hidroxiapatita e também ao produto de solubilidade da fluorapatita, cujo pH  crítico para dissolução é 4,5. Novamente é como se houvesse mais desses íons na saliva (cálcio, fosfato e flúor), a tendência é o dente ganhar esses íons sob a forma de hidroxiapatita; devido a presença de flúor, que favorece a deposição de cálcio e fosfato, também ocorrerá a deposição de fluorapatita/hidroxiapatita fluoretada. Quando o pH diminui, devido a ingestão de açúcar, para um pH < ou = a 5,5, a saliva fica subsaturada em relação a solubilidade da hidroxiapatita. Entretanto a saliva continuará saturada em relação ao produto fluorapatita ou apatita fluoretada.  Isso quer dizer que apesar de o dente perder íons cálcio e fosfato devido a dissolução de hidroxiapatita, o esmalte continuará ganhando os mesmo íons na forma de fluorapatita. O flúor diminui a solubilidade do esmalte, pois funciona como catalisador desses íons perdidos na forma de hidroxiapatita, devolvendo ao dente na forma de fluorapatita ou apatita fluoretada. O flúor apresenta essa capacidade catalisadora até um pH > ou = a 4,5. Abaixo desse pH nem o flúor consegue agir. Nessa situação a saliva se encontrará subsaturada em relação a solubilidade da hidroxiapatita e fluorapatita. Estará perdendo minerais o que irá resultar numa lesão de cárie incipiente, tipo lesão branca ( opaca e sem brilho). Portanto na prevenção de cáries dentária, o uso do flúor tem um papel relevante, pois aumenta a resistência do esmalte, tornando-o menos solúvel. Ele influência na maturação do esmalte logo após sua erupção, interfere no biofilme, principalmente, favorece a remineralização do esmalte como foi explicado.

fonte: http://muitobomessecafe.blogspot.com.br/

Vejo muitos artigos de colegas criticando a eficacia do produto e não os culpo até pela falta de provas científicas e resultados clínicos. Não devemos reprovar um produto pela falta de comprovação científica. Com o tempo, o produto ou tratamento pode-se mostrar realmente eficaz. No entanto, também não devemos confiar nas promessas do fabricante sem as mesmas comprovações. Nove anos de estudos são praticamente nada na área da saúde. Fato é que na odontologia constantemente aparecem produtos ditos revolucionários, com investimentos pesados em marketing e após algum tempo simplesmente desaparecem por não funcionarem como o prometido. Veja o caso do famoso clareador caseiro o qual já citei aqui no site. Existem outras terapias de regeneração de tecido dentário como laserterapia também com eficácia duvidosa. Enquanto não houverem estudos conclusivos, eu sigo com os meus colegas com um pé atrás a respeito deste produto e receitando os tradicionais cremes dentais fluoretados, estes sim com eficácia científica e clínicas comprovadas.

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